Monique Widmer em Entrevista

Monique Widmer, nasceu na Suíça, viveu alguns anos em Portugal,  mas tem nacionalidade cabo-verdiana, por já viver cá há 27 anos. Respondeu,

com muito prazer, a um apelo da Cáritas Cabo-Verdiana; trabalhou 16 anos na acção social da Igreja Católica, como responsável pedagógica dos projectos de promoção feminina e de desenvolvimento comunitário. Quando deixou a Cáritas, em 1999, quis dar o seu contributo na área da cultura.

P: Pretende continuar a viver em Cabo Verde ou pensa um dia a ir embora?

R: Sim, penso ficar. Gosto de viver em Cabo Verde e na Ilha do Fogo. Escolhi ficar e partilhar a vida e a amizade das pessoas com quem vivo faz já longos anos. Somente razões de saúde podem mudar o rumo da minha vida. 

P: O que fazia antes de vir viver para Cabo Verde?

R: Trabalhei na área de saúde, tenho formação em Saúde, na área do Desenvolvimento e também em Ciências Sociais e Pedagógicas.

Como lidou com a diferença cultural?

R: Tive muita sorte, sempre encontrei pessoas, como, por exemplo, os animadores da Caritas Cabo-verdiana nas comunidades, que me explicavam todas as coisas, afim de melhor realizar o meu trabalho e dar os apoios necessários. Era uma maneira de compreender os modos de viver, as necessidades e as diferenças culturais. Quando volto à Suíça é que tenho noção de como já convivi com outras culturas. O único problema que ainda tenho, é não falar o crioulo com perfeição, pois, no início, faltou-me que me ensinasse a falar correctamente o crioulo, sendo uma língua oral. Precisava do português para o trabalho, tornou-se obrigatório falar e escrever português.

Como define a cultura Cabo Verdiana?

A cultura é tudo o que fazemos e tudo o que transformamos numa sociedade, pode ser a música, a dança, a literatura, a maneira de cozinhar a Cachupa ou a djagácida, a maneira como o agricultor faz a monda, como os valores que se transmitem na educação. Tanto um agricultor como um pensador contribuem para a cultura de um país. A cultura está em constante evolução e aprendi muito cedo com Paulo Freire, o grande pedagogo brasileiro, a importância de reflectir sobre a nossa história e cultura. A cultura cabo-verdiana revela-se pela sua originalidade. Conheci/conheço, através do meu trabalho, todas as ilhas e penso que cada ilha tem a sua particularidade.

Como surgiu a ideia de criar a Casa de Memória?

Gosto sempre de fazer algo que seja em prol de uma população, contribuindo tanto para a cultura, como para o desenvolvimento, lá onde estou/vivo. Na Cáritas, dei o meu contributo. Aqui na Ilha do Fogo percebi que havia uma História, um passado, que se estava a perder. Quando encontrei este espaço que precisava ser restaurado, e como gosto muito de História, de Arte, surgiu então a ideia. Como diz um escritor da Martinica: “Um povo sem memória, é um povo sem futuro”,  e eu pessoalmente, acredito que o que somos hoje, constrói–se a partir do passado. Como se diz no folheto de apresentação da Casa da Memória: “Guardar a memória do passado para construir a história do futuro”, isto é muito importante. Reparei também que as pessoas que visitavam a ilha do Fogo, quando descobriam o centro histórico de S.Filipe, como a Igreja e as casas/sobrados circundantes, procuravam saber a história desse lugar. Assim, com a ajuda de várias famílias que contribuíram, cedendo objectos, e a colaboração de algumas pessoas que abraçavam o mesmo ideal, conseguimos criar este espaço.

Porquê o nome Casa da Memória?

A palavra “casa”, na cultura caboverdiana é muito forte, tem grande significado. “Memória” no sentido de recolher no passado o que nos identifica hoje. Os objectos de uma casa –  mobilia, louça, objectos da vida quotidiana – revelam uma história. Reencontrar documentos dos séculos XVI, XVIII, XIX, etc. explicam esta história. Tive o empenho em ir ao encontro desta memória através de uma exposição etno-histórica.

Como reuniu os bens que a Casa da Memória tem expostos?

Trabalho com Gilda Barbosa, que pertence à família que confiou em mim cedendo grande parte dos objectos aqui expostos, até porque a manutenção dos objectos é grande. Foi a partir da família da Gilda que outras cederam também outros bens, nomeadamente uma biblioteca particular com livros do séc. XIX. As três salas da exposição apresentam o acervo de seis gerações, dez famílias, entre 1800 e 1950. Alguns pertencem-me, mas a maioria são destas famílias. Não quero possuir, o meu papel é reunir, conservar e mostrar/divulgar. Acompanha-se de uma investigação constante, que gerou a ideia de constituir uma biblioteca especializada aberta ao público, com livros e documentos sobre Cabo Verde, com realce para a Ilha do Fogo.

Quais são para si as maiores potencialidades da ilha do Fogo?

O vulcão é o que mais atrai as pessoas, mas penso que cada vez mais os guias têm abertura para fazer descobrir outras coisas. Também a gastronomia, entre outras ofertas turísticas. É preciso desenvolver, restaurar em vez de destruir os lugares históricos. Há um grande desafio para melhorar as coisas aqui, até porque as pessoas que visitam observam tudo.

Qual o papel da Casa da Memória?

Apresento sempre a Casa da Memória como uma iniciativa privada, pois não tem carácter institucional. Um conjunto de pessoas achou por bem abrir um espaço histórico-cultural, porque é importante conhecermos e dar a conhecer o nosso passado. É uma iniciativa de cidadania.

Todos os países têm que integrar a História de uma maneira positiva, admitir que somos fruto de várias influências, mas sobretudo somos Cabo-Verdianos.

 

Entrevista realizada por Celsa Andrade e Carla Barros
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tchondjarfogo.wordpress.com